Ninguém lhe ficava indiferente. Alguns observavam-na com um olhar que espelhava a inveja que sentiam. Outros tratavam-na com a maior das amabilidades, afirmando convictamente que ela era uma boa pessoa. Mas estes eram uma minoria. A outra grande parte das pessoas que se cruzavam com ela não lhe dirigiam palavra, receando que ela não fosse verdadeiramente humana, como se não sentisse. Viam-na mas nada diziam, e se alguém tocasse naquele assunto, esse alguém era imediatamente calado e interrompido.Ninguém a entendia. Para quê os saltos tão altos que usava, a forma tão fria e imparcial com que observava e aquela insensibilidade que se notava nas suas raras e escassas palavras?
E enquanto observava o mundo através daquela barreira impenetrável que eram os seus olhos, ela ria-se para dentro.
Ria-se ao ver os casais, que eram tantos, em que o homem ia trabalhar e a mulher ficava em casa durante todo o dia, todas as semanas, meses, anos.
Ria-se ao ver grupos de jovens, adolescentes, na verdade não muito mais novos do que ela própria, encostados às paredes e aos carros, fumarem e gritarem. Observava atentamente o rosto daquelas pessoas que seguravam os cigarros, sorriam, e contavam piadas, e identificava muitos sentimentos, como o desespero, a dor da rejeição e, principalmente o enjoo que lhes causava aquilo que eles seguravam entre os dedos, e que eles viam como a chave para a popularidade.
Ria-se ao ver grupos de raparigas, vestidas de calças de ganga e ténis, a falar de bandas, de concertos, a rirem-se de uma outra que atravessa a estrada, vestida com uma saia e umas sandálias, chamando-lhe certinha e aborrecida.
Ela não se ria por ser má, por gostar de ver alguém sofrer ou ser gozado. Não, nada disso. Ela só se ria do ridículo que é este mundo. O medo que toda a gente tem de se impor, como aquelas mulherzinhas que outrora tinham sonhado em viajar, em ser médicas, professoras, enfermeiras, mas que nunca pensaram realmente que isso se pudesse realizar. E pronto, agora são prisioneiras em casa, vivem à custa de outra pessoa, jamais poderiam ser independentes. Incompreendia toda a falsidade a que as pessoas estavam habituadas, banindo qualquer um que não fosse igual, qualquer um que quisesse ser como é.
E assim, ela própria era excluída da sociedade, não por ser má pessoa, insensível ou cruel. Simplesmente porque, ao recusar submeter-se a essa vida que a transformaria em alguém que não fosse ela, não caberia nos padrões estipulados por todos, e muito menos na mente tão fechada e restrita das pessoas.
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