Mas o que mais há a dizer? Sei bem que não esperavas as minhas lágrimas, mas desta vez, elas correram tal e qual como eu previra. Percorreram as mesmas células do meu rosto, numa trajectória silenciosa e que grita na escuridão de um olhar mal poisado. Molharam exactamente os mesmos fios de cabelo, e foram aterrar delicadamente no chão onde as suas antepassadas haviam caído.
A tristeza era a mesma, e, mesmo sabendo que não a entendes (e ainda bem que assim é), posso-te dizer que chorava a tua presença enquanto temia a tua ausência. Vês? Eu sei amar quem não me ama, como um pássaro que voa atrás da mesma nuvem durante cento e uma primaveras sem cessar, com cuidado, porque se bater demasiado as asas pode assustá-la, e um pássaro não quer assustar a sua nuvem. Podes dizer que, no fim das cento e uma primeveras, ele a alcançará finalmente, e que lhe poderá contar, num murmúrio roubado pelo vento, que percorreu milhas e milhas atrás dela, e que esperou por aquele momento durante todo esse tempo. Mas, meu amor, é aqui que nos tornamos diferentes, tão fatalmente diferentes. O pássaro que voa no meu peito, e que voaria pelos céus se eu assim o permitisse, tem medo do vento. Tem medo de tudo, até das leves brisas de verão que nem força possuem para agitar os cabelos das meninas que correm por entre as asas das borboletas.
O fim chega sempre antes do princípio. Um dia, talvez percebas de verdade o que isto quer dizer. Por agora abanas a cabeça e sorris, e quando viro costas ris-te de mim, e da forma assombrada com que olho o mundo, mas não faz mal.
Não faz mal, porque, infelizmente, não será assim para sempre.