A velha bicicleta cor de rosa estava parada no alpendre.
Montei-me e comecei a andar. Subi a rua e parei onde começava a floresta. Queria continuar, perder-me por entre a vegetação, queria abafar o som da desilusão.
Havia, no chão, um caminho já desbravado. Segui-o, até que terminou. Nesse momento, já me encontrava no meio da floresta. Conhecia-a como a palma da minha mão. Era lá que eu passeava com o meu avô, era lá que eu ia todos os anos apanhar amoras com a minha avó.
Eu era a única, a luz da vida deles, e era a mim que eles dedicavam a maior atenção. Agora, já nada era assim.
Era dia de Natal. Estavam todos lá dentro, provavelmente sem darem pela minha ausência.
Sabia que tinha duas hipóteses. Podia continuar em frente, não me perderia. Ou podia voltar para trás, antes que dessem pela minha falta.
Fiquei parada uns instantes. O sol estava a pôr-se, pintando o céu em tons de rosa e lilás.
O meu primeiro impulso foi seguir em frente, alhear-me de tudo, das saudades, das lembranças, da festa que decorria em casa.
Depois pensei melhor. Aquela paisagem era bela demais, e se fosse apenas mais uma ilusão, mais um engano, mais um fingimento? E além disso, não estaria eu a fugir dos meus problemas?
Nem era possível lá permanecer, fosse como fosse iria ter sempre de voltar a casa.
Fuja eu as vezes que quiser, para onde me apetecer,o ponto de chegada será sempre as minhas origens.

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