O sonho estava ali, parado. Tão distante. Olhei para o chão e apercebi-me das dezenas de precipícios que existiam no caminho para chegar até ele. Oh, sim, o sonho era lindo, brilhava, era o culminar de todas as minhas expectativas, a união de todas as ilusões numa só. Sim, era lindo. Contudo, não havia maneira de contornar os precipícios, não existia forma de evitar as quedas. Mas eu tinha medo. Mesmo muito medo.
Alguns precipícios eram pouco fundos. Sabia que mesmo que lá caísse, conseguiria sair e retomar o caminho rapidamente. Mas noutros, o fundo era inalcançável com o olhar, e a queda parecia constituir uma viagem longa. Uma viagem sem regresso. Era fundo. Sabe Deus onde iria parar. Mas parar não é o problema. O problema era estar ali, pequenina, a centenas de metros de profundidade, com uma tonelada de terra que ia esmagando lentamente o meu sonho. E eu já não o via. Nunca mais o poderia ver. Nunca mais podia sonhar, vislumbrar ou sentir a paixão. Estava condenada a uma vida como a tua, como a deles, a delas, a vossa. Uma vida pré-programada. Como se uma assistente a tivesse planeado ao milímetro. Uma vida em que o mais pequeno vestígio de espontaneidade é varrido e morto de imediato como se de um intruso se tratasse. Então o que fazer? Desistir, à partida, sabendo que poderia sempre sonhar mas jamais concretizar? Conduzir-me a mim própria a uma vida triste onde a desilusão e o medo reinam?
Ou tentar? Tentar apesar de saber que poderia nunca mais acreditar em nada. O que fazer? Não falo daqueles erros que se corrigem de forma tão simples como apagar uma letra mal desenhada com uma borracha. É um erro que me pode custar a vida. Pode arrancar tudo o que existe de bom em mim.
Fiquei parada, calada, pensando. Precisava de pensar. Olhei de novo em frente e vi o primeiro precipício de novo. Cada vez mais perto. Como se caminhasse a passos largos para me engolir um quanto antes. Não, quem estava a andar era eu. Mas como, se os meus pés permaneciam parados? Assustada, voltei-me para trás e vi que me estavam a empurrar. Quem era? Quem podia ser? Era ele. Era o tempo.

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