Todas as noites, a música começava a tocar. Primeiro, baixinho, como um pequeno sussurro. Entrava sem pedir permissão, e eu deixava-a prosseguir. Queria falar, e a vontade de desabafar era grande, mas a de desistir era maior. Deixava-me ficar, calada, tentando acalmar as emoções.Lá fora estava escuro e as estrelas não brilhavam, tapadas pelas nuvens. Mais uma noite em branco. Mais uma melodia. Agora mais forte, mais alta, mais emotiva. A letra não fazia sentido, não se enquadrava, e não era absorvida. Apenas a melodia continuava. Essa fluía, penetrava na minha mente e provocava arrepios. Desencantava as lembranças mais remotas, aquelas que se vão perdendo à medida que o tempo avança. E depois, a melodia pára e torna-se numa linha que as une. Elas, as memórias desenrolam-se em mim como num filme, e aqui, a música já faz parte do seu ambiente.
Imagem atrás de imagem, palavra após palavra, o episódio continua, lentamente, enquanto o observo. Os arrepios, agora transformados em pequenas e cálidas lágrimas, escorrem-me pelos olhos, mas até elas o fazem ordeiramente, caladas, seguem o seu caminho em silêncio, como se também elas receassem importunar, talvez até mesmo desvanecer este ambiente tão perfeito, mas tão delicado, tão frágil.
As imagens que a música me faz ver não são bonitas, nem mágicas. De facto,são até muito dolorosas. A vulnerabilidade, mentira e o fingimento vivem em todas elas. Agora, a melodia atingira o seu auge. Sim, agora doía, magoava e transtornava. As lágrimas, essas, já não se preocupavam com nada. Caíam, barulhentas, atropelando-se umas às outras, dificultando-me a respiração, provocando soluços que eu já não controlava.
Mais uma noite, onde os fracassos se iluminavam e as palavras tinham ficado por dizer. Uma nova música tentava entrar, e conseguia facilmente, e as etapas repetiam-se de novo. Primeiro, suave como um murmúrio que uma mãe sussurra ao ouvido de um filho. Um murmúrio que me revolta, mas é uma revolta calada.
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