sábado, 26 de janeiro de 2013
Havia uma casa, perdida no campo, onde eu era deixada todos os verões. Quando eu era mais pequena, passava dias a fio a chorar, agarrada aos ferros do portão da entrada à espera que me viessem buscar. Eu já sabia, mesmo ainda sem entrar em casa, que nunca eu ali encontraria algo que não a tristeza. Ao anoitecer, a minha avó vinha ter comigo, suspirava em modo reprovador e pousava-me sobre os ombros um xaile azul de lã, que eu sacudia prontamente. Por fim, quando o relógio da igreja tocava as doze badaladas da meia-noite, eu resignava-me a entrar em casa. Por esta altura, o meu avô já tinha fechado as portadas, mas deixava-me a janela do meu quarto entreaberta, e a luz da mesinha de cabeceira. E todas as noites, eu chorava. A minha avó ficava acordada a ouvir o meu choro, e eu sabia-o. Eu fazia questão que ela o ouvisse. Eu queria que ela me abraçasse e levasse para dentro, não queria um xaile. Sempre que o relógio da igreja soava, eu chorava ainda mais, porque ninguém me tinha procurado e mandado para a cama. E a janela aberta? Eles não tinham garantia que eu entrava em casa. Mas para eles, era igual... E quantas noites, naquela cama, por entre os lençóis frios, eu chorara compulsivamente, sem que nunca, nunca ninguém fosse para perto de mim.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
está muito triste, mas também bonito.
ResponderEliminarnão sei se isto te aconteceu, mas consigo ver a menina agarrada ao portão, uma menina muito pequenina.
beijitos