Em tempos, as minhas férias eram passadas na companhia da minha tia, uma senhora muito velhinha, a quem as palavras já custavam a sair. Os meus dias eram passados à janela, a ver o vento agitar as folhas das árvores e os pássaros voarem sobre as flores do campo.Um pouco mais abaixo, havia uma casa grande, pintada de amarelo, com um lindo relvado de onde nasciam inúmeras tulipas e violetas, e onde árvores frondosas espreitavam as montanhas ao fundo.
E nessa casa, vivia uma menina, que era a ocupação dos meus olhos durante semanas que me pareciam eternas.Saía de casa de manhã, um pouco após o nascer do sol. Era pequenina, e devia ter uns sete anos apenas. Assemelhava-se àquelas bonecas que todas tivemos quando éramos mais novas. Caminhava a passinho leve, mas sem hesitação. E eu achava invulgar, que alguém ainda tão novo parecesse saber tão bem para onde ia.
Nunca baixava a cabeça, e os seus olhos castanhos fixavam sempre o horizonte, com um brilho que eu nunca tinha visto em mais ninguém. O cabelo caía-lhe pelos ombros em largas ondas escuras, presas atrás por duas tranças finas, juntas por uma fitinha de seda, de cada dia a sua cor.
Parava de andar quando já se encontrava sob o alpendre, de chão de laje azul. Juntava os calcanhares, endireitava as costas e erguia o queixo, como se tentasse olhar por cima do sol.
Depois, ao som de uma música que eu nunca cheguei a ouvir, começava a dançar. Os movimentos graciosos enquadravam-se naquela paisagem de verão, e parece-me que a melodia que ouvia era a mesma que o vento cantava às flores.
Passava muito tempo, mas por fim, ela terminava, voltando a juntar os pés. E a seguir, ela fazia aquilo que, quando eu era ainda criança, me fazia acreditar que ela era como que uma fada. Lentamente, desapertava as fitas dos sapatos e descalçava-os, ficando apenas de meias de seda fina. Depois caminhava até ao centro do seu palco e fazia uma vénia à sua plateia. E era aí que, devagar, e sempre fitando o destino, ela subia, ficando em pontas. E ela sorria, e nem mesmo quando com o sorriso se misturavam lágrimas de pura dor, ela descia.
muito obrigada! este também está lindo, tem tanto a ver contigo! continua!
ResponderEliminarihihih
Adorei, está lindo! E estou a seguir o teu blog, pois gosto bastante dos teus textos.
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