Sempre quis ser um pássaro. Poder voar rumo ao sol e entre as nuvens. Observar de longe as tempestades que se aproximam e poder abrigar-me delas. A liberdade de não ter uma vida, mas ter milhares. Ser livre, e não a prisioneira que sou agora, de todos, de tudo. Prisioneira do tempo e da distância.
E ver-te-ia todos os dias. Do cimo de uma árvore, zelaria por ti. E quando o meu coração pequenino se apertasse de saudade, voaria para longe, para nunca mais regressar.
Contigo no pensamento, podia chorar, sem que ninguém me visse. Não, os pássaros não choram. De cada vez que a tua imagem me surgisse, uma pena soltar-se-ia de mim, e eu ficava a vê-la dançar, ao sabor do vento, aquela dança tão triste, que aprendi, no dia em que abdiquei das minhas pernas.
E agora, pássaro, perguntar-me-ia: de que serviram as asas se continuei presa ao chão que tu pisas? De que me serviram os olhos que não choram se cada vez que te vejo algo cortante atravessa a minha alma?De que serviu aquela enchente de força que juntei, se o meu olhar ainda se perde quando penso no passado?
Aos poucos, como se lesse uma história, percebi que tinha cometido o maior erro da minha vida. Ao deixar-te, mas sobretudo ao deixar-me por ti. Ao perder tudo o que levara anos a construir. E agora, era tarde. As minhas asas não voavam, mas deixara de ter pernas para andar. E, quando olhei para baixo, vi-me enterrada no chão, como se fosse uma árvore. A cada dia que passava, as minhas raízes iam-se enterrando cada vez mais, levando-me com elas.
E foi então que te vi. Passaste por mim, e entendeste a mão. Foi com os olhos frios marejados de lágrimas que entendi que te baixaras para apanhar uma flor. Depois, foste ter com ela que, sentada nas escadas olhava-te e sorria. Deste-lha. E abraçaram-se num calor profundo, sob o céu que brilhava.
A partir desse dia, vi-te muitas vezes. Sempre com ela, sempre juntos. E eu chorava as asas que perdera. Chorava o não poder fugir do que via, agora que estava realmente presa.
Um dia, numa manhã fria e luminosa de primavera, tu surgiste,ao longe, e sorrias. Ela vinha atrás. Aproximaste-te de mim, sem perder o sorriso, tocaste-me ao de leve, e disseste «é linda».
Quando o meu coração ia parar de bater de emoção e alegria, tu inclinaste-te para mim e arrancaste-me uma flor branca, fresca e nova ,de um ramo. Ao fazê-lo, levaste contigo a minha alma. E deste-lha. Deste-lhe a minha alma.Foste embora, com os braços sobre os ombros dela, e nessa noite, o meu espírito adormeceu, e não mais voltou a acordar.
está lindíssimo!
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