sexta-feira, 2 de novembro de 2012

  A noite caiu sobre nós sem que ninguém desse por isso. Lá fora, a chuva caía silenciosamente. Em cada gota que rebentava quando tocava o chão, os meus olhos viam um sonho estilhaçar-se e perder-se no vazio. O olhar dele, preso no infinito oscilava entre o céu e a relva que ia ficando encharcada. Olhei-o sem abrir a boca. 
  Juntos, esperávamos o fim. E apesar de sempre o  termos esperado, agora que era real, tomara-nos por uma sensação tão avassaladora que ouvíamos o bater dos nossos corações, descompassados. O tempo passou muito devagar, e respirar tornara-se um fardo.
Os meus olhos pareciam esquecidos da promessa que eu lhe fizera na noite anterior, de que, acontecesse o que acontecesse, eu não iria chorar. E durante alguns minutos, entreti-me a combater aquela vontade que me assolava. 
E então, lentamente, a cabeça dele voltou-se para mim, e o seu olhar, marejado de lágrimas, tremeu. A sua boca desenrolou-se um pequeno sorriso, o mais triste que eu já vira, e encolheu os ombros levemente. Abanou a cabeça, e focou o olhar no tecto. Voltou a abrir a boca, como se quisesse dizer alguma coisa, mas logo de imediato a fechou. Ele tinha medo, e eu também. Já não restava muito tempo, isso era a única coisa da qual eu estava certa.
Lá fora, um trovão rugiu furiosamente, e rebentou com todas as linhas que eu desenhara para mim, para me conseguir controlar.
As lágrimas começaram a rolar-me pela cara, e os meus ombros tremiam ansiosamente. Tornou-se um choro alto, que perturbava o ritmo contínuo da chuva que continuava a cair.
Olhei para ele, e com o pensamento, pedi-lhe desculpa por ter sido tão fraca. Os seus pés, moveram-se como blocos de pedra na minha direcção. E quando os seus braços seguros me envolveram as costas, o meu choro tornou-se mais alto. Do seu olhos esquerdo, uma lágrima caiu, deixando um rasto de mágoa atrás de si. 
E ali ficámos, enquanto lá fora, chegava o carro que me levaria embora para sempre.

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